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ANÁLISE: Faltou o PT na vida de Ricardo? A prepotência política pode ter custado a eleição ao MDB no Espírito Santo.

há 54 minutos
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Café com Política ES




RESUMO: Ricardo Ferraço (MDB) diminuiu a diferença para Lorenzo Pazolini (Republicanos) no segundo turno, mas não conseguiu vencer a eleição para o Governo do Espírito Santo. A ausência de apoio formal do PT, que conquistou 15,32% dos votos válidos no primeiro turno com Helder Salomão, pode ter dificultado a ampliação de sua base eleitoral. O distanciamento entre Ricardo e os petistas, agravado por divergências políticas e pelo histórico do MDB, levantou obstáculos para uma aproximação durante a campanha. Mesmo com o apoio do governo Casagrande e de lideranças municipais, Ricardo não conseguiu transformar essa estrutura em votos suficientes para superar Pazolini. A derrota levanta uma reflexão sobre os riscos da autossuficiência política e a importância do diálogo e da construção de alianças antes que o apoio se torne indispensável.



Ricardo Ferraço reduziu a distância para Lorenzo Pazolini no segundo turno, mas não conseguiu virar o resultado.



Ricardo Ferraço (MDB) chegou ao segundo turno das eleições para o Governo do Espírito Santo com uma vantagem política importante: era o candidato apoiado pelo governador Renato Casagrande, tinha a estrutura do governo estadual ao seu lado e contava com uma ampla rede de alianças municipais. Mesmo assim, terminou a disputa derrotado por Lorenzo Pazolini (Republicanos). O resultado levanta uma questão que merece ser discutida: Ricardo subestimou o peso do PT e de uma parcela expressiva do eleitorado capixaba?


Os números mostram que Ricardo conseguiu avançar no segundo turno, mas não o suficiente para vencer. No primeiro turno, Pazolini recebeu 1.048.633 votos, correspondentes a 49,65% dos votos válidos, enquanto Ricardo obteve 719.397 votos, ou 34,06%. A diferença entre os dois era de 15,59 pontos percentuais.


No segundo turno, Ricardo ampliou sua votação para 1.056.119 votos, chegando a 47,83%. Pazolini também cresceu, alcançando 1.151.818 votos, o equivalente a 52,17%. A distância caiu para 4,34 pontos percentuais, mas a virada não aconteceu.


Ricardo conquistou mais 336.722 votos em relação ao primeiro turno. Pazolini ampliou sua votação em 103.185 votos. A diferença entre os dois diminuiu consideravelmente, mas o candidato do MDB não conseguiu construir a maioria necessária para chegar ao Palácio Anchieta.


A questão, portanto, não é dizer que Ricardo não cresceu. Ele cresceu. O problema foi não ter conseguido transformar esse crescimento em vitória.



A conta que Ricardo pode ter subestimado


Um dos pontos centrais para compreender a disputa está no desempenho de Helder Salomão (PT) no primeiro turno. O petista recebeu 323.483 votos, correspondentes a 15,32% dos votos válidos. Era uma votação expressiva, capaz de influenciar o equilíbrio da disputa entre os dois candidatos que avançaram para o segundo turno.


Mas os votos de Helder não pertenciam automaticamente a Ricardo.


O PT capixaba não declarou apoio formal à candidatura do emedebista. Embora o presidente estadual da legenda, João Coser, tenha manifestado apoio individual a Ricardo, Helder Salomão não aderiu à campanha do governador. A diferença entre uma manifestação pessoal de apoio e uma decisão partidária é politicamente relevante.


Ricardo precisava conquistar os eleitores de Helder, mas também precisava oferecer razões para que eles se sentissem representados por sua candidatura. Isso exigia diálogo, negociação e compromissos capazes de superar divergências políticas acumuladas.


Não bastava esperar que o eleitor de esquerda escolhesse Ricardo apenas para impedir a vitória de Pazolini. Era necessário convencê-lo de que havia motivos concretos para votar no candidato do MDB.



A relação com o PT já estava desgastada


O distanciamento entre Ricardo e o PT não surgiu durante o segundo turno. Conforme o histórico político relatado, a relação sofreu um abalo quando Ricardo assumiu o governo estadual após a saída de Renato Casagrande para disputar o Senado.


Em abril, Ricardo teria encaminhado uma carta ao diretório nacional do MDB sinalizando que não aceitaria uma aliança com o PT nas eleições de 2026. A posição contrastava com o relacionamento político que o partido mantinha com Casagrande durante seu governo.


Na sequência, a direção petista orientou filiados que ocupavam cargos no primeiro e no segundo escalões do governo estadual a deixarem suas funções. O afastamento aprofundou a distância entre as duas forças políticas.


Esse histórico ajuda a compreender por que o apoio do PT não poderia ser tratado como algo natural no segundo turno. A aliança que poderia ter sido negociada antes da campanha tornou-se uma questão muito mais difícil quando Ricardo passou a precisar de votos para vencer.


Se a decisão de afastar o PT partiu da avaliação de que o partido não seria necessário para seus planos eleitorais, o resultado oferece uma reflexão importante: na política, dispensar um aliado antes de conhecer o tamanho do desafio pode ser um erro de cálculo.


É preciso cautela, entretanto, para não transformar essa hipótese em uma certeza. Não há dados suficientes para afirmar que todos os eleitores de Helder deixaram de votar em Ricardo por causa desse conflito, nem que um apoio formal do PT teria garantido a vitória do MDB.


O que os fatos permitem dizer é que Ricardo chegou ao segundo turno sem o apoio institucional da legenda que havia conquistado mais de 323 mil votos na primeira etapa da eleição.



A prepotência política cobra seu preço?


A palavra prepotência aparece com frequência nas críticas dirigidas a políticos que demonstram pouca disposição para negociar, ouvir adversários ou reconhecer a importância de outras forças. No caso de Ricardo, a pergunta que se coloca é se sua postura política contribuiu para afastar setores que poderiam ter ajudado a ampliar sua base eleitoral.


Ao assumir o governo, Ricardo precisava construir sua própria relação com os partidos e com a sociedade. Ser o sucessor de Casagrande, contar com a máquina administrativa e ter apoio de lideranças municipais eram vantagens importantes, mas não substituíam a necessidade de conquistar confiança.


Se o episódio envolvendo o MDB e o PT foi interpretado como um sinal de que Ricardo considerava dispensável o apoio dos petistas, isso pode ter dificultado uma aproximação posterior. A política exige alianças, mas também exige reconhecer que outros grupos têm projetos, bases eleitorais e reivindicações próprias.


A prepotência, nesse contexto, não deve ser tratada como uma característica pessoal comprovada, mas como uma possível leitura política de suas decisões. O eleitorado não vota apenas em obras e promessas. Também avalia a postura dos candidatos, suas prioridades e a maneira como lidam com quem pensa diferente.



O peso da reforma trabalhista e do histórico do MDB


Outro obstáculo para a aproximação com a esquerda está no histórico político de Ricardo. Em 2017, durante o governo Michel Temer (MDB), ele foi relator da reforma trabalhista no Senado, uma das principais medidas daquele período e alvo de fortes críticas de sindicatos, movimentos sociais e partidos de esquerda.


O MDB também ficou associado ao governo Temer, que assumiu a Presidência após o impeachment de Dilma Rousseff (PT), processo que setores da esquerda classificam como golpe.


Esse passado não significa que todos os eleitores de Helder tenham votado contra Ricardo por causa da reforma trabalhista ou do MDB. Entretanto, são questões que podem pesar na avaliação de eleitores que defendem direitos trabalhistas e políticas sociais.


Para conquistar parte desse eleitorado, Ricardo precisava demonstrar por que deveria receber a confiança de pessoas que historicamente divergiam de suas posições. Poderia ter apresentado compromissos concretos com os trabalhadores, ampliado o diálogo com movimentos sociais e esclarecido quais seriam suas prioridades para reduzir desigualdades.


Uma aliança eleitoral não apaga divergências históricas. Mas uma negociação transparente pode criar condições para que partidos diferentes construam compromissos em comum.



O governo tinha obras, recursos e alianças. Por que não foi suficiente?


Outro aspecto da derrota está na relação entre a força administrativa do governo e a capacidade de conquistar votos. A gestão Casagrande realizou investimentos e construiu alianças com lideranças municipais. Ricardo assumiu esse legado e tinha a expectativa de dar continuidade ao projeto político.


Mas uma estrutura governamental forte não garante, automaticamente, uma maioria eleitoral.


O eleitor pode reconhecer obras e serviços públicos sem necessariamente se identificar com o candidato apoiado pelo governo. Também pode avaliar negativamente determinados aspectos da gestão, preferir outra proposta ou simplesmente não considerar a continuidade como a melhor opção.


Por isso, não é possível concluir apenas com o resultado eleitoral que os investimentos foram insuficientes ou que a população rejeitou integralmente o governo. Para sustentar essa interpretação, seria necessário analisar pesquisas de avaliação da gestão, a votação por município e o comportamento dos diferentes segmentos do eleitorado.


O resultado, porém, deixa uma lição: o apoio de um governador bem articulado e a presença de uma estrutura política não dispensam o candidato de construir sua própria identidade e conquistar a confiança da população.



O sobrenome Ferraço não garante a mesma aceitação


Ricardo também carrega o peso de uma família tradicional na política capixaba. Seu pai, Theodorico Ferraço, tem uma trajetória consolidada em Cachoeiro de Itapemirim e foi eleito prefeito do município pela quinta vez em 2024.


A força política do pai, entretanto, não se transfere automaticamente para o filho. Uma liderança pode ter grande aceitação em sua base eleitoral e, ainda assim, enfrentar dificuldades para conquistar a maioria em uma disputa estadual.


Ricardo precisava demonstrar por que deveria ser escolhido por eleitores de diferentes regiões e realidades sociais do Espírito Santo. O sobrenome, as alianças e a experiência política poderiam ajudar, mas não substituíam a construção de uma identificação própria com o eleitorado.


A eleição mostrou que o caminho até o governo estadual depende de muito mais do que herança política ou apoio de lideranças tradicionais.



O que Ricardo poderia ter feito para vencer?


Não há como afirmar que uma estratégia diferente teria garantido a vitória, mas algumas decisões poderiam ter ampliado suas chances.


A primeira seria manter um canal de diálogo com o PT antes de o conflito se aprofundar. Em vez de tratar a aliança como algo dispensável, Ricardo poderia ter buscado um entendimento político, reconhecendo as diferenças e discutindo compromissos possíveis.


A segunda seria construir uma agenda pública voltada também aos eleitores que não se identificavam com o MDB. Propostas concretas para trabalhadores, servidores, famílias de baixa renda e pequenos empreendedores poderiam ajudar a diminuir a resistência a sua candidatura.


A terceira seria trabalhar sua imagem pública. Uma campanha mais aberta ao diálogo, com maior disposição para responder a críticas e reconhecer divergências, poderia contribuir para ampliar sua aceitação.


Por fim, Ricardo precisava transformar o legado de Casagrande em um projeto próprio, demonstrando não apenas o que pretendia manter, mas também o que faria de diferente para responder às demandas da população.


Essas medidas não assegurariam a vitória. Pazolini tinha uma base eleitoral expressiva, terminou o primeiro turno na frente e conseguiu ampliar sua votação no segundo. Ainda assim, uma estratégia mais ampla de diálogo e mobilização poderia ter tornado a disputa mais favorável ao MDB.



Faltou o PT na vida de Ricardo?


O resultado não permite afirmar que a ausência do PT foi a causa única da derrota de Ricardo Ferraço. A eleição é resultado de múltiplos fatores: a força dos adversários, a avaliação do governo, a imagem dos candidatos, as alianças políticas e as escolhas individuais dos eleitores.


Mas a ausência de um apoio formal do PT é um elemento relevante nessa análise, especialmente porque Helder Salomão havia conquistado mais de 323 mil votos no primeiro turno.


Ricardo conseguiu diminuir a distância, ampliar sua votação e tornar a disputa mais apertada. Ainda assim, não conseguiu reunir apoio suficiente para superar Pazolini. Nesse contexto, a relação desgastada com o PT e a dificuldade de construir pontes com setores da esquerda merecem ser examinadas como possíveis fatores que limitaram seu crescimento.


A principal lição é que alianças não devem ser tratadas como descartáveis quando ainda não parecem necessárias. Na política, o diálogo precisa começar antes da urgência eleitoral. Quando um candidato fecha portas durante a construção de seu projeto, pode descobrir tarde demais que precisava justamente daqueles que deixou do lado de fora.


Talvez tenha faltado o PT na vida política de Ricardo. Mas, acima de tudo, pode ter faltado a percepção de que nenhuma força política é tão autossuficiente a ponto de dispensar o diálogo e, depois, esperar que os votos apareçam por obrigação.

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