Do resgate à liberdade: projeto no Caparaó já devolveu cerca de 600 animais à natureza.
há 44 minutos
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Por Addison Viana

Foto: Arquivo/Dalva Ringuier - Entre os animais recuperados e entregues de volta à natureza, está uma espécie de papagaio que estava em extinção na região, e que hoje já voam em bando.
Na divisa entre Dores do Rio Preto e Divino de São Lourenço, no Caparaó Capixaba, um trabalho silencioso vem ganhando forma há quase dois anos. Na área da Pousada Águas do Caparaó, a ambientalista e ex-secretária executiva do Consórcio Caparaó Dalva Ringier transformou parte da propriedade em um espaço destinado ao acolhimento e à recuperação de animais silvestres que ainda não estão preparados para retornar ao ambiente natural.
A iniciativa funciona em parceria com órgãos ambientais e a Polícia Ambiental. Animais apreendidos ou resgatados são encaminhados para o local quando precisam de cuidados antes de uma possível soltura. Quando estão novamente em condições de sobreviver na natureza, chega o momento mais esperado: o retorno à liberdade.
E esse momento também virou uma oportunidade de aprendizado.

Foto: Arquivo/Dalva Ringuier
Dalva leva o trabalho para escolas e recebe estudantes na propriedade, promovendo atividades de educação ambiental e aproximando crianças e jovens da fauna e da importância da preservação da Mata Atlântica.
Segundo ela, aproximadamente 600 animais já foram devolvidos à natureza desde o início do projeto.

Foto: Dalva Ringuier - No momento em que Dalva conversava com nossa reportagem por telefone, ela registrou o momento em que os papagaios estavam chegando para se alimentarem.
Entre eles, estão uma espécie de papagaio que estava em extinção na região, que graças ao projeto, foram resgatados, já se acasalaram e formaram bandos que sobrevoam hoje a região do Caparaó Capixaba. Inclusive, Dalva revelou que depois de soltos, eles ainda reaparecem ao local pelo menos duas vezes ao dia, para se alimentarem livremente. Durante a entrevista, que foi feita por telefone, foi possível ouvir alguns deles chegando na propriedade.
Quando a soltura vira uma aula
A proposta vai muito além de simplesmente receber um animal, cuidar dele e devolvê-lo ao ambiente.
Dalva criou uma estrutura para receber grupos escolares, com espaço para palestras e atividades práticas. A ideia é permitir que os estudantes tenham contato direto com ações de conservação e compreendam que a proteção da fauna depende também da mudança de comportamento das pessoas.

Foto: Arquivo/Dalva Ringuier - A profesora e também ambientalista, Iracilda Dias Viana, participou do lanaçamento ddo projeto, quando foram devolvidos à natureza mais de 200 animais silvestres.
Em uma das ações realizadas no local, mais de 200 animais foram soltos de uma só vez, em um momento que reuniu participantes do projeto e convidados.
Para Dalva, a experiência tem um componente difícil de traduzir apenas em números.
“É um trabalho lindo, maravilhoso”, relata.
A presença de aves que passaram pelo projeto e posteriormente retornam à região também se tornou um dos símbolos da iniciativa.
Um trabalho mantido praticamente com recursos próprios

Foto: Arquivo/Dalva Ringuier - O projeto conta com o apoio do IEMA, do IBAMA e com a parceria da Polícia Ambiental.
Apesar de contar com a parceria dos órgãos ambientais para o encaminhamento dos animais e com as licenças necessárias para funcionamento, a estrutura do projeto foi construída pela própria Dalva.
Viveiros, alimentação e manutenção ficam sob responsabilidade da propriedade.
Ela conta que o investimento nasceu muito mais de uma convicção pessoal do que de uma estrutura financeira garantida.
“É um projeto de paixão. De coração”, resume.
A ambientalista também chama atenção para uma realidade que, segundo ela, ainda preocupa: enquanto os animais domésticos recebem grande atenção da sociedade, espécies nativas continuam sofrendo com a perda de habitat, captura e caça ilegal.
Educação ambiental, pesquisa e Mata Atlântica

O projeto também abriu espaço para outras iniciativas.
Além das ações educativas, Dalva relata a realização de pesquisas para identificar espécies existentes na Mata Atlântica da região e a intenção de reunir esse conhecimento em uma publicação digital.
A proposta é transformar a propriedade em um ponto de encontro entre educação ambiental, conservação da fauna, pesquisa e turismo de natureza.
Nesse sentido, o projeto particular acaba se conectando a uma história muito maior: a própria construção da identidade do Caparaó Capixaba.
Antes do turismo, havia estradas difíceis e quase nenhuma estrutura
Ao falar sobre seu trabalho atual, Dalva também aproveitou para relembrar uma fase importante de sua trajetória no Consórcio Caparaó.
Segundo ela, quando começou a atuar na região, em meados da década de 1990, a realidade era muito diferente da atual. Estradas eram precárias ou sequer existiam em determinados pontos, não havia a estrutura turística que hoje faz parte da paisagem e a região ainda não possuía a mesma organização administrativa e econômica.
Dalva recorda que o território era tratado como parte do Sul do Espírito Santo e que os recursos públicos estavam concentrados principalmente em Cachoeiro de Itapemirim.
Foi nesse cenário, segundo seu relato, que surgiu um movimento para estruturar e fortalecer a região do Caparaó.
A ex-secretária afirma que o trabalho envolveu diferentes frentes, incluindo abertura e melhoria de acessos, educação ambiental, organização regional e ações voltadas ao desenvolvimento dos municípios.
Para ela, essa história corre o risco de ser esquecida justamente por quem chegou depois e encontrou uma região já estruturada.
Um documentário para preservar a memória do Caparaó
É justamente para evitar que essa história desapareça que Dalva e outras pessoas envolvidas com a trajetória da região tentam produzir um documentário sobre a formação e o desenvolvimento do Caparaó.
A proposta é reunir imagens e registros antigos para contar como era a região antes da infraestrutura atualmente conhecida pelos moradores e visitantes.
A produção, no entanto, enfrenta dificuldades financeiras.
Segundo Dalva, uma pequena empresa se dispôs a realizar o trabalho por cerca de R$ 3 mil, mas o grupo ainda busca recursos para viabilizar o projeto.
A intenção não termina no documentário. Depois, a ideia é transformar o material também em um livro, reunindo relatos e registros históricos.
Uma história que une passado e futuro
A trajetória de Dalva no Caparaó ganhou, assim, duas frentes diferentes, mas ligadas por um mesmo princípio: preservar aquilo que pode desaparecer.
De um lado, está a memória de uma região que passou por profundas transformações desde a década de 1990. Do outro, um projeto que tenta garantir que animais silvestres continuem existindo e que as novas gerações compreendam a importância de protegê-los.
Entre uma história e outra, aparece a educação ambiental como ponto de conexão.
Se no passado o desafio era ajudar a estruturar uma região ainda pouco conhecida, hoje a preocupação é fazer com que seu patrimônio natural seja preservado.
E, enquanto estudantes acompanham a recuperação de animais e participam das solturas, Dalva trabalha para que a natureza e a própria história do Caparaó não sejam esquecidas.


























































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