OPINIÃO | Quando o trabalhador perde, quem está comemorando?
- há 11 horas
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Por Addison Viana

Vamos falar sem rodeios.
O trabalhador brasileiro está sendo feito de palhaço.
Enquanto milhões de brasileiros acordam cedo, enfrentam ônibus lotado, trânsito, jornada pesada, batem ponto e passam seis dias trabalhando para ter apenas um dia de descanso, dentro do Congresso Nacional existe gente decidindo que esse trabalhador pode esperar mais um pouco.
Pode esperar até depois das eleições.
Pode esperar enquanto os políticos fazem suas contas eleitorais.
Pode esperar enquanto partidos calculam quem vai ganhar ou perder votos.
Pode esperar enquanto parlamentares discutem estratégias.
Mas a conta do mês não espera. O cansaço não espera. A vida não espera.
E agora querem que o trabalhador espere também pela votação do fim da escala 6x1.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, anunciou que a proposta ficará para depois das eleições. Isso acontece justamente depois de a matéria avançar na Comissão de Constituição e Justiça e ficar pronta para ser analisada pelo plenário.
E aqui está o que mais revolta:
não estamos falando de uma proposta que acabou de chegar ao Congresso.
A discussão sobre redução da jornada de trabalho já existe há anos. A PEC 221/2019 é anterior ao atual movimento popular que ganhou força em 2024. Desde então, o debate ganhou as ruas, mobilizou trabalhadores e passou a ocupar espaço cada vez maior no Congresso.
Agora, quando a proposta finalmente chega a uma etapa decisiva, alguém resolve puxar o freio.
Por quê?
Porque estamos em ano eleitoral?
Pelo que vem sendo revelado nos bastidores e publicado pela imprensa, existe, sim, uma articulação política para evitar que a votação aconteça antes das eleições. Parlamentares da oposição demonstraram resistência à votação imediata, e nomes como Flávio Bolsonaro e Rogério Marinho aparecem nas reportagens sobre essa movimentação.
E não sejamos ingênuos.
O fim da escala 6x1 é uma pauta extremamente popular.
Uma eventual aprovação poderia ser apresentada pelo governo Lula como uma grande conquista para os trabalhadores.
E aí surge o cálculo político.
"Se votarmos agora, isso pode ajudar Lula."
Pois então eu pergunto:
E daí?
Se uma medida é boa para o trabalhador, ela deve ser votada porque é boa para o trabalhador — e não porque vai favorecer ou prejudicar determinado candidato.
Se a proposta é ruim, que votem contra.
Se é inviável, que expliquem ao trabalhador por quê.
Se precisa ser modificada, que apresentem mudanças.
Mas impedir ou adiar a votação por medo do resultado eleitoral é colocar o interesse político acima do interesse de quem trabalha.
E isso, para mim, é inaceitável.
O POLÍTICO PODE ESPERAR. O TRABALHADOR NÃO.
É muito fácil falar sobre produtividade sentado em gabinete.
É muito fácil falar sobre custo para as empresas quando você não precisa acordar às cinco da manhã para pegar ônibus.
É muito fácil defender uma jornada pesada quando sua realidade profissional é completamente diferente daquela vivida pela maioria dos brasileiros.
O trabalhador da escala 6x1 não está discutindo teoria.
Ele está cansado.
Ele quer ver os filhos.
Quer ter um domingo com a família.
Quer descansar.
Quer cuidar da própria casa.
Quer ter tempo para viver.
E isso não é luxo.
Tempo de vida não deveria ser privilégio de quem ganha muito.
Enquanto alguns trabalhadores passam seis dias da semana praticamente vivendo para o trabalho, muitos políticos têm uma estrutura profissional, salários e benefícios que estão muito distantes da realidade de quem recebe um salário mínimo.
E ainda querem dizer ao trabalhador que ele precisa esperar?
Esperar até quando?
DIREITOS TRABALHISTAS NUNCA FORAM "FAVOR"
É bom lembrar uma coisa.
Direito trabalhista não é presente de político.
Foi conquistado com luta.
Férias não foram presentes.
Descanso semanal não foi presente.
Limitação da jornada não foi presente.
Salário mínimo não foi presente.
Direitos trabalhistas foram construídos depois de muita pressão social, organização dos trabalhadores e disputa política.
E, historicamente, quase sempre apareceu alguém dizendo que determinado direito iria quebrar as empresas, destruir empregos ou levar o país à ruína.
O mundo não acabou.
O Brasil não acabou.
As empresas continuaram funcionando.
A economia continuou existindo.
E os trabalhadores conquistaram direitos.
Agora, novamente, aparece o discurso de que reduzir a jornada será um desastre.
Que haverá prejuízo.
Que as empresas não suportarão.
Que a economia será afetada.
Pois muito bem.
Que o Congresso discuta isso.
Que empresários apresentem seus estudos.
Que economistas apresentem seus argumentos.
Que parlamentares defendam suas posições.
Mas coloquem a proposta para votar.
É para isso que eles estão lá.
QUEM FINANCIA CAMPANHA NÃO PODE TER MAIS FORÇA QUE QUEM TRABALHA
E existe uma pergunta que o trabalhador brasileiro deveria fazer:
Quem realmente tem influência sobre os políticos?
O trabalhador que acorda às cinco da manhã?
A mulher que trabalha seis dias por semana?
O pai que pega dois ônibus para chegar ao emprego?
Ou os grandes grupos econômicos, empresários e setores organizados que possuem acesso direto ao poder?
É uma pergunta incômoda.
Mas precisa ser feita.
Porque quando o trabalhador pede mais descanso, dizem que é impossível.
Quando o trabalhador pede melhores salários, dizem que é caro.
Quando pede redução de jornada, dizem que a economia não aguenta.
Mas quando grandes interesses econômicos estão em jogo, sempre aparece uma solução.
Sempre existe uma negociação.
Sempre existe uma urgência.
Sempre existe uma porta aberta.
Por que a porta não pode estar aberta também para o trabalhador?
E AÍ CHEGA A ELEIÇÃO
É justamente aqui que entra a responsabilidade do eleitor.
Eu não estou dizendo que todo político de direita é contra o trabalhador.
Seria uma generalização injusta.
Também não acredito que todo político de esquerda seja automaticamente defensor do trabalhador.
Político precisa ser cobrado pelo que faz.
Mas o eleitor precisa começar a prestar atenção nos votos.
Não apenas nos discursos.
Não apenas nos vídeos bonitos.
Não apenas nas promessas de campanha.
Nos votos.
Quem votou a favor?
Quem votou contra?
Quem trabalhou pela votação?
Quem tentou adiar?
Quem defendeu o trabalhador?
Quem defendeu outros interesses?
Porque, quando chegar a eleição, muitos desses mesmos políticos vão aparecer pedindo novamente o voto daquele trabalhador que passou quatro anos trabalhando seis dias por semana.
E o trabalhador precisa ter memória.
Precisa perguntar:
"Quando eu precisei de vocês, onde vocês estavam?"
NÃO TRANSFORMEM O TRABALHADOR EM MOEDA ELEITORAL
Se existe uma coisa que me revolta nessa história é justamente essa.
A vida do trabalhador não pode ser utilizada como peça de estratégia eleitoral.
Não se pode adiar um direito porque ele pode beneficiar politicamente o adversário.
Se a proposta for aprovada e Lula ganhar votos por causa disso, paciência.
Se a proposta for aprovada e a oposição conseguir apresentar uma alternativa melhor, que faça.
Se o trabalhador reconhecer quem votou a favor, isso faz parte da democracia.
O que não dá é para impedir o trabalhador de conquistar um direito simplesmente porque alguém está preocupado com o efeito disso nas urnas.
O trabalhador não é propriedade de partido nenhum.
Não pertence à esquerda.
Não pertence à direita.
Não pertence a Lula.
Não pertence a Bolsonaro.
Pertence a si mesmo.
E tem o direito de cobrar de todos os políticos.
AGORA É A HORA DE O TRABALHADOR ABRIR OS OLHOS
Por isso, minha opinião é muito clara:
o adiamento da votação do fim da escala 6x1 é uma vergonha política.
Não porque eu ache que toda proposta precisa ser aprovada automaticamente.
Mas porque uma matéria dessa importância, que mexe diretamente com a vida de milhões de trabalhadores, precisa ser discutida e votada.
É para isso que existe o Congresso Nacional.
E, quando chegar a hora de votar, eu espero que o trabalhador faça exatamente aquilo que os políticos fazem tão bem: lembre.
Lembre quem estava ao lado dele.
Lembre quem estava contra.
Lembre quem tentou colocar a proposta em votação.
Lembre quem tentou empurrá-la para depois.
Lembre quem falou bonito na televisão.
E, principalmente, lembre quem apertou o botão na hora de decidir.
Porque político tem quatro anos para trabalhar pelo povo.
O trabalhador tem a vida inteira para trabalhar.
E, mesmo assim, querem pedir que ele espere mais.
Não.
O trabalhador já esperou demais.
Ele não está pedindo privilégio.
Não está pedindo luxo.
Não está pedindo favor.
Está pedindo o direito de trabalhar menos e viver mais.
E, para mim, qualquer político que tenha vergonha de votar isso às claras, olhando nos olhos do trabalhador, deveria ter vergonha de pedir o voto dele depois.
Porque eleição passa.
O mandato passa.
Mas o trabalhador continua lá — trabalhando.


























































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