De campeão mundial a vice de Ferraço: a história de Camillo Neves, o novo nome da política capixaba.
4 de ago.
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Por Addison Viana

Foto: Reprodução/Instagram - O anúncio da escolha do vice foi feito pelo governador em video publicado nas suas redes sociais.
Ricardo Ferraço (MDB) anunciou, em vídeo publicado nas redes sociais, Camillo Neves (PP) como seu candidato a vice-governador na disputa pelo Governo do Espírito Santo em 2026. Segundo Ferraço, a definição ocorreu após “muita conversa” e “muito diálogo”, que, de acordo com ele, são fundamentais para uma construção coletiva. Ao apresentar o companheiro de chapa, Ferraço destacou a trajetória de Camillo como atleta, sua formação em Educação Física, o mandato de vereador de Vitória e o trabalho social desenvolvido na Ilha de Santa Maria.
Ao lado de Ferraço, Camillo afirmou estar preparado para o novo desafio e celebrou a entrada na chapa.
“É uma alegria fazer parte desse time. Tô pronto. Tamo juntasso. Agora é o futuro”, declarou o vereador.
No mesmo anúncio, Ferraço também apresentou Anderson Bueno, prefeito de Viana, e Juliane, servidora efetiva do Estado, como responsáveis pela coordenação do programa de governo da chapa.
Do esporte à política: uma trajetória que começou antes das urnas
Antes de vestir terno e ocupar uma cadeira na Câmara de Vitória, Camillo Augusto Marchezi de Oliveira Neves passou boa parte da vida vestindo uniforme de atleta.
Nascido em Vitória, em 29 de agosto de 1991, Camillo cresceu na região da Ilha de Santa Maria e encontrou no esporte o primeiro caminho para construir uma trajetória própria.
Formado em Educação Física, ele começou no futsal e passou por categorias de base de clubes importantes, incluindo Fluminense, antes de construir uma carreira internacional.
A trajetória esportiva levou o capixaba para fora do país. Camillo teve passagens por equipes como Benfica, Udinese e Espanyol e ganhou projeção principalmente no futebol 7 e no beach soccer.
Na modalidade, chegou a defender a Seleção Brasileira e acumulou títulos internacionais. Também se naturalizou italiano e passou a defender a seleção da Itália no futebol de areia.
Durante anos, o esporte foi sua principal identidade pública.
Mas, paralelamente à carreira de atleta, Camillo começou a construir outra marca que seria importante anos depois: a atuação social.
O Instituto Camillo Neves
Em 2021, Camillo criou o Instituto Camillo Neves.
A iniciativa nasceu com projetos esportivos e posteriormente ampliou suas atividades, passando a oferecer modalidades e serviços como futebol, funcional, pilates, dança, lutas e fisioterapia.
A sede foi instalada na Ilha de Santa Maria, região onde Camillo construiu parte de sua história.
O instituto se transformou em uma das principais vitrines de sua atuação comunitária e, segundo informações divulgadas pela Câmara de Vitória, já alcança centenas de pessoas.
A iniciativa também ajudou a criar uma relação que ultrapassa a política partidária: a ligação direta com crianças, jovens, atletas e famílias beneficiadas pelos projetos.
Em junho de 2025, o instituto foi declarado de utilidade pública municipal.
É um detalhe importante para entender sua ascensão política.
Camillo não chegou às urnas apenas com uma estrutura partidária. Ele já tinha uma rede de relacionamento construída por meio do esporte e dos projetos sociais.
A política não começou com uma vitória
A história eleitoral de Camillo, entretanto, não começou com sucesso.
Em 2016, aos 24 anos, ele disputou pela primeira vez uma vaga na Câmara de Vitória.
Não conseguiu.
Recebeu 1.140 votos.
Quatro anos depois, tentou novamente.
Em 2020, pelo Partido Verde, obteve 1.427 votos e terminou como primeiro suplente.
Foi derrotado nas urnas, mas não ficou longe do mandato.
Em 2022, quando o então vereador Luiz Paulo Amorim se licenciou para disputar uma vaga de deputado estadual, Camillo assumiu a cadeira como suplente.
Foi o primeiro passo concreto dentro do Legislativo.
Mas ainda faltava a confirmação das urnas.
A terceira tentativa foi diferente

Foto: Reprodução/TVCMV - Só na terceira disputa Neves foi diretamente eleito vereador nas urnas.
Foi somente em 2024, na terceira tentativa eleitoral, que Camillo conseguiu ser eleito diretamente.
Pelo Progressistas, recebeu 2.778 votos e conquistou uma cadeira titular na Câmara Municipal de Vitória.
O resultado representa praticamente o dobro da votação obtida quatro anos antes.
A evolução eleitoral ajuda a explicar a ascensão: 2016: 1.140 votos, 2020: 1.427 votos e 2024: 2.778 votos
A trajetória mostra um político que precisou de três eleições para conquistar definitivamente seu espaço.
Primeiro, candidato derrotado.
Depois, suplente.
Em seguida, vereador por substituição.
E finalmente, vereador eleito diretamente pelo eleitor.
É justamente essa história que ajuda a construir a narrativa política de Camillo: alguém que chegou ao poder institucional depois de sucessivas tentativas.
Um vereador com uma marca própria
Na Câmara de Vitória, Camillo encontrou uma área em que sua biografia naturalmente se encaixa: o esporte.
Entre suas iniciativas estão propostas relacionadas ao beach soccer, ao Bolsa Atleta, à segurança em equipamentos esportivos e à promoção de atividades físicas.
Um dos projetos criou o chamado “Gol Seguro”, estabelecendo medidas de segurança para traves utilizadas em campos e quadras esportivas.
Outra iniciativa buscou ampliar o acesso de atletas beneficiários do Bolsa Atleta às academias populares de musculação.
Também apresentou proposta relacionada à criação de uma política municipal de prevenção e tratamento da dependência em jogos de azar.
A atuação legislativa, portanto, não rompeu com a história que ele havia construído antes da política.
Ao contrário.
Camillo levou o esporte para dentro do mandato.
De aliado de Pazolini a adversário político
Mas a trajetória política recente ganhou uma nova dimensão em 2026.
Camillo começou a atual legislatura como aliado do então prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini.
A relação, porém, sofreu um forte desgaste durante a disputa pela presidência da Câmara Municipal.
O episódio ficou conhecido no ambiente político como “Dalto em agosto”, movimento que defendia a eleição antecipada de Dalto Neves para comandar o Legislativo no biênio seguinte.
Camillo esteve entre os vereadores que apoiaram o movimento.
A disputa colocou de um lado o grupo que defendia a antecipação da eleição da Mesa Diretora e, de outro, os interesses políticos ligados ao prefeito.
O conflito acabou contribuindo para o rompimento político entre Camillo e Pazolini.
A partir dali, o vereador passou a adotar uma postura mais independente em relação ao Executivo municipal.
Foi nesse ambiente que ele ganhou uma dimensão política maior.
O episódio da CPI
Outro episódio que passou a fazer parte da trajetória política de Camillo ocorreu em torno de uma proposta de CPI envolvendo EDP, Ceturb e Cesan.
Camillo chegou a assinar o requerimento para a criação da comissão.
Posteriormente, pediu a retirada de sua assinatura.
Na documentação oficial, a justificativa apresentada foi a elevada carga de demandas parlamentares e institucionais, que, segundo o registro, dificultaria sua participação direta e contínua nos trabalhos.
A própria documentação ressalta que a retirada da assinatura não representava manifestação de mérito sobre o objeto da investigação.
O episódio, contudo, ganhou repercussão política.
E, em uma eleição estadual, fatos como esse podem voltar ao debate.
Não necessariamente como prova de irregularidade — não há, nos documentos consultados, elemento que permita fazer essa afirmação —, mas como parte do histórico político de um candidato que começa a deixar de ser apenas vereador para se tornar personagem de uma disputa muito maior.
Um nome que ganhou força no grupo de Ricardo Ferraço
A ruptura com Pazolini abriu espaço para uma nova aproximação.
Camillo passou a se aproximar do grupo político de Ricardo Ferraço.
A articulação ganhou força dentro da Federação União Progressista, formada por Progressistas e União Brasil.
A partir daí, o nome do vereador começou a aparecer com insistência nas conversas sobre a composição da chapa que pretende disputar o Governo do Espírito Santo.
E o que inicialmente parecia apenas uma possibilidade passou a ganhar contornos concretos. Camillo passou a ser apontado como favorito para ocupar a vaga de vice na chapa de Ricardo Ferraço.
A escolha tem uma lógica política: Ricardo representa experiência, trajetória administrativa e uma carreira construída ao longo de décadas.
Camillo representa juventude, esporte, Vitória e uma geração política mais nova.
A diferença de idade entre os dois também é evidente. Aos 34 anos, Camillo pode ajudar a imprimir à chapa uma imagem de renovação.
O atleta que pode virar vice-governador

Foto: Reprodução - Ele foi atleta, campeão, jogador de seleções e passou temporadas fora do Brasil.
Há ainda outro componente. Camillo não é um político profissional de carreira tradicional. Sua biografia começa no esporte. Ele foi atleta, campeão, jogador de seleções e passou temporadas fora do Brasil.
Essa história permite que sua eventual candidatura seja apresentada não apenas como uma escolha partidária, mas como a chegada à política de alguém que construiu uma trajetória profissional antes de entrar definitivamente na vida pública.
É uma narrativa eleitoral poderosa.
O menino da Ilha de Santa Maria que virou atleta profissional.
O jogador que chegou à Seleção Brasileira.
O capixaba que também defendeu a Itália.
O empreendedor que criou um instituto social.
O candidato que perdeu duas eleições.
O suplente que assumiu uma cadeira.
O vereador que finalmente foi eleito.
E agora, aos 34 anos, o nome cotado para ser vice-governador.
Mas há um problema: Camillo ainda precisa ser conhecido pelo Espírito Santo
É justamente aqui que aparece o maior desafio da candidatura.
Camillo pode ser conhecido em Vitória.
Pode ter reconhecimento na Grande Vitória.
Pode ser conhecido no meio esportivo.
Pode ter uma rede construída por meio do instituto e de seus projetos sociais.
Mas isso não significa que seja um nome conhecido no interior do Espírito Santo.
E essa diferença pode ser decisiva.
Uma eleição para vereador é territorialmente limitada.
Uma eleição para vice-governador é estadual.
O eleitor de Vitória pode conhecer Camillo.
O eleitor de Vila Velha pode ter ouvido falar dele.
O ambiente esportivo pode reconhecer seu nome.
Mas será que ele é conhecido em Colatina?
Em Linhares?
Em São Mateus?
Em Cachoeiro de Itapemirim?
Em Nova Venécia?
Em Barra de São Francisco?
Em Alegre?
Em São José do Calçado?
Essa é a pergunta que a campanha terá de responder.
O desafio de transformar uma história pessoal em voto estadual
Camillo tem uma história eleitoral interessante, mas ainda não testou seu nome em uma disputa estadual.
Ele nunca disputou uma eleição para deputado estadual, deputado federal ou cargo majoritário.
Se virar candidato a vice-governador, será imediatamente colocado em uma eleição completamente diferente daquela que conhece.
A escala muda.
A comunicação muda.
O eleitor muda.
E, principalmente, a percepção de reconhecimento muda.
Na eleição municipal de 2024, Camillo recebeu 2.778 votos.
Foi suficiente para conquistar uma cadeira na Câmara de Vitória.
Mas uma chapa majoritária precisa conversar com milhões de eleitores.
O desafio será transformar uma trajetória esportiva e social localizada em uma narrativa que alcance os 78 municípios capixabas.
Um político que tenta se apresentar como moderado
Camillo também procura construir uma imagem diferente da polarização tradicional.
Em declarações públicas, já afirmou que prefere ouvir posições diferentes e que não pretende fazer oposição simplesmente por fazer oposição.
A postura ajuda a explicar sua capacidade de transitar entre grupos políticos distintos.
Na Câmara, segundo relatos publicados pela imprensa e registros legislativos, seu relacionamento político não ficou restrito a um único campo ideológico.
Essa característica pode ser útil em uma chapa majoritária.
Ao mesmo tempo, também pode gerar questionamentos.
Em uma eleição cada vez mais marcada pela polarização nacional, o eleitor poderá querer saber exatamente qual é o posicionamento de Camillo em temas que ultrapassam esporte, cultura e administração municipal.
O capital político do esporte
Se existe um patrimônio político que Camillo possui antes mesmo de uma eventual candidatura, é o esporte.
Ele não apenas fala sobre esporte.
Ele viveu o esporte.
Foi atleta profissional.
Jogou no exterior.
Defendeu seleções.
Conquistou títulos.
Criou projetos.
Construiu um instituto.
E transformou essa experiência em atuação parlamentar.
Esse histórico pode ser particularmente importante para alcançar uma parcela do eleitorado jovem.
A questão será saber se essa identificação é suficiente para transformar reconhecimento em voto.
A família e as origens
Camillo também vem de uma família com presença em diferentes áreas profissionais.
É filho do músico Guto Neves e de Amélia.
Seu pai também possui formação em Direito e seu irmão atua na advocacia.
Camillo é neto de um desembargador.
Apesar disso, sua trajetória eleitoral não é apresentada como uma sucessão política familiar.
Ele é apontado como o primeiro integrante da família a disputar uma eleição.
Sua história política, portanto, foi construída principalmente a partir do esporte, da atuação comunitária e das próprias tentativas eleitorais.
Um patrimônio declarado pequeno diante da projeção política
Na eleição de 2024, Camillo declarou à Justiça Eleitoral patrimônio de R$ 40 mil.
O dado, por si só, não permite medir sua situação financeira real, já que se trata dos bens formalmente declarados à Justiça Eleitoral.
Ainda assim, é uma informação que integra a ficha pública do candidato e que deverá ser observada caso sua candidatura majoritária seja confirmada.
O homem por trás do político
A biografia de Camillo chama atenção justamente porque não começa na política.
Ele construiu primeiro uma carreira profissional.
Depois criou projetos sociais.
Tentou uma eleição.
Perdeu.
Tentou novamente.
Perdeu outra vez.
Virou suplente.
Assumiu uma cadeira.
E, na terceira tentativa, conquistou o mandato diretamente pelas urnas.
Agora, a política oferece a ele uma possibilidade que poucos vereadores de primeiro mandato conseguem alcançar tão rapidamente.
A vice-governadoria.
De desconhecido eleitoral a personagem central da eleição
A possível escolha de Camillo por Ricardo Ferraço também diz muito sobre o momento político do Espírito Santo.
A chapa precisa combinar experiência e renovação.
Interior e Grande Vitória.
Continuidade e mudança.
E, principalmente, precisa apresentar ao eleitor uma composição que possa dialogar com diferentes segmentos.
Camillo pode cumprir parte dessa função.
Mas terá de enfrentar uma questão incontornável: ele ainda precisa deixar de ser conhecido apenas como “o vereador de Vitória” para se transformar em um nome conhecido pelo Espírito Santo inteiro.
Sua carreira esportiva pode ajudar.
Seu instituto pode ajudar.
Sua juventude pode ajudar.
Sua história pessoal pode ajudar.
Mas nada disso substitui a construção de uma presença política estadual.
O próximo capítulo
Aos 34 anos, Camillo Neves está diante da maior oportunidade de sua trajetória.
Ainda ontem, era vereador de Vitória.
Hoje, é escolhido para compor a chapa de Ricardo Ferraço.
O ex-atleta tem agora uma missão que nenhum campeonato de futebol 7 ou beach soccer lhe ensinou: disputar o voto de um Estado inteiro.
E talvez seja justamente essa a maior partida de sua carreira.
De um lado, uma história de superação, esporte, projetos sociais e crescimento eleitoral.
Do outro, a falta de conhecimento fora da Grande Vitória, a pouca experiência em eleições estaduais e o peso das disputas políticas que já marcaram seu primeiro mandato.
Camillo chega à disputa com uma história pronta.
Agora terá de provar se essa história consegue virar voto.
Porque ser conhecido em Vitória é uma coisa.
Ser escolhido pelo Espírito Santo é outra completamente diferente.
























































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