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Dia de finados: Por que o Brasil lembra seus mortos em silêncio, enquanto o México transforma a data em uma grande festa?

há 16 minutos
6 min de leitura

Por Addison Viana


Foto: Marcos Salles - Cemitério da capital Vitória começou a receber visitas bem no inícia da manhã

desta segunda-feira.




RESUMO: Celebrado em 2 de novembro, o Dia de Finados tem origem na tradição cristã medieval e é marcado, no Brasil, por visitas aos cemitérios, flores, velas e orações. A celebração foi consolidada a partir de uma iniciativa do abade Odilo de Cluny, no século X. No México, o Día de los Muertos apresenta uma tradição diferente, com altares, comidas, música, caveiras coloridas e homenagens festivas aos antepassados. Reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2008, a manifestação mexicana reúne influências indígenas e católicas. Apesar das diferenças, as duas celebrações preservam a memória e os vínculos afetivos com aqueles que morreram.



Entre flores e orações no Brasil e festas coloridas no México, duas culturas revelam diferentes maneiras de homenagear quem já partiu.


Entre flores, velas, orações e homenagens, o 2 de novembro carrega séculos de história. Mas, do outro lado da América Latina, a memória dos que partiram ganha cores, música, comida e celebrações populares.




O dia 2 de novembro é marcado por sentimentos de saudade, homenagens e reflexão em diversas partes do mundo. No Brasil, o Dia de Finados costuma ser lembrado pelas visitas aos cemitérios, pelas flores depositadas nos túmulos, pelas velas acesas e pelas orações dedicadas às pessoas que já morreram. No México, porém, a mesma época do ano é marcada por uma tradição bastante diferente: o Día de los Muertos, uma celebração que transforma a lembrança dos falecidos em uma manifestação cultural repleta de cores, música, comidas e simbolismos.


Embora as duas datas tenham como ponto de partida a memória daqueles que partiram, suas manifestações culturais revelam maneiras distintas de compreender a morte, a saudade e a relação entre os vivos e seus antepassados.



Uma tradição que atravessa mais de mil anos


A origem histórica do Dia de Finados está relacionada à tradição cristã medieval. Em 998, o abade francês Odilo de Cluny estabeleceu que os mosteiros ligados à sua ordem dedicassem um dia especial de orações pelas almas dos fiéis falecidos.


A iniciativa se espalhou gradualmente por outras comunidades religiosas e ajudou a consolidar a celebração no calendário cristão.


A escolha de 2 de novembro também não foi aleatória. A data vem logo depois do Dia de Todos os Santos, celebrado em 1º de novembro, ocasião dedicada à memória dos santos, inclusive aoe que não possuem datas específicas no calendário.


Com o passar dos séculos, a celebração ultrapassou os limites dos mosteiros e passou a fazer parte da vida de diferentes sociedades, adquirindo características próprias em cada país.



Por que o Dia de Finados é celebrado em 2 de novembro?


A proximidade com o Dia de Todos os Santos está diretamente relacionada à organização do calendário litúrgico católico.


Enquanto o primeiro dia de novembro é dedicado à celebração de todos os santos, conhecidos ou não, o dia seguinte é reservado à lembrança dos fiéis falecidos.


A tradição foi incorporada à cultura de diversos países e, no Brasil, o 2 de novembro é reconhecido como feriado nacional. A legislação que o inclui expressamente entre os feriados nacionais foi estabelecida pela Lei nº 10.607, de 19 de dezembro de 2002.



Flores, velas e orações: como os brasileiros homenageiam seus mortos


No Brasil, Finados é tradicionalmente um dia de recolhimento. Desde as primeiras horas da manhã, cemitérios de diferentes regiões recebem famílias que aproveitam a ocasião para visitar os túmulos de parentes e amigos.


Muitas pessoas limpam as sepulturas, organizam as lápides e levam flores como demonstração de carinho e respeito. Crisântemos, margaridas e palmas estão entre as espécies frequentemente utilizadas nessas homenagens.


Outro costume bastante presente é acender velas. Para os católicos, a chama representa a fé, a esperança e a continuidade da vida espiritual.


As igrejas também realizam missas especiais, algumas delas dentro dos próprios cemitérios. Em diferentes comunidades, celebrações religiosas e momentos de oração reúnem pessoas que encontram na fé uma maneira de lidar com a ausência de quem amavam.


A data também movimenta o comércio popular. Nas proximidades dos cemitérios, vendedores oferecem flores, velas, alimentos e bebidas para atender ao público que participa das homenagens.


Mesmo entre aqueles que não seguem uma religião, o dia costuma representar uma oportunidade de recordar histórias, reviver lembranças e refletir sobre a importância das pessoas que fizeram parte de suas vidas.



As cores das vestes religiosas também têm significado


Durante as celebrações católicas de Finados, as vestimentas utilizadas pelos sacerdotes podem apresentar diferentes cores, cada uma associada a um significado religioso.


O preto está tradicionalmente relacionado ao luto e à tristeza pela morte.


O violeta representa a penitência e a reflexão espiritual. Já o branco simboliza a esperança, a luz e a crença na ressurreição.


A utilização dessas cores pode variar conforme as orientações litúrgicas e as tradições de cada comunidade religiosa.



Uma curiosidade da Idade Média: orações em troca de comida


Uma prática antiga que chama a atenção dos historiadores é o chamado souling, costume registrado principalmente na Grã-Bretanha e na Irlanda.


Na época medieval, pessoas pobres percorriam as casas de famílias mais abastadas oferecendo orações pelas almas dos falecidos. Em troca, recebiam alimentos ou dinheiro.


A tradição demonstra como a lembrança dos mortos também estava relacionada às práticas de solidariedade e às relações sociais daquele período.



BRASIL E MÉXICO: DUAS CULTURAS, DUAS MANEIRAS DE CELEBRAR A MEMÓRIA DOS MORTOS



Foto: Reprodução - La Catrina, é figura de um esqueleto feminino vestido elegantemente, que se tornou um dos principais ícones da festividade do Dia de los Muertos, no México.




No México, a lembrança dos falecidos é marcada por uma das manifestações culturais mais conhecidas do país: o Día de los Muertos.


Celebrada principalmente entre 31 de outubro e 2 de novembro, a festividade reúne elementos das tradições indígenas mexicanas e do catolicismo introduzido durante a colonização espanhola.


Diferentemente do costume predominante no Brasil, a celebração mexicana não tem como característica principal o silêncio ou o recolhimento. As ruas recebem enfeites coloridos, as famílias organizam refeições especiais e os cemitérios podem se transformar em espaços de encontros, música e homenagens.


Uma das crenças associadas à tradição é a de que, nesse período, as almas dos falecidos retornam simbolicamente para visitar seus familiares. Por isso, as casas são preparadas para recebê-las.



Altares com fotografias, comidas e lembranças


Um dos elementos mais importantes da festividade são as ofrendas, altares montados pelas famílias em homenagem aos parentes e amigos que morreram.


Neles, são colocadas fotografias, velas, água, incenso, objetos pessoais e pratos que eram apreciados pelos homenageados. Também é comum encontrar o tradicional pan de muerto, um pão doce preparado especialmente para a ocasião.


As flores de cempasúchil, de tonalidade alaranjada intensa e aroma característico, são outro símbolo marcante. Suas pétalas podem ser espalhadas pelo chão, formando caminhos que, segundo a tradição, ajudam a orientar o retorno das almas aos lares.



Caveiras coloridas e a famosa La Catrina


A morte também aparece representada de maneira bastante particular na cultura mexicana. Caveiras de açúcar, chocolate e outros materiais são utilizadas nas decorações, muitas vezes com cores vibrantes e desenhos elaborados.


Outro símbolo famoso é La Catrina, figura de um esqueleto feminino vestido elegantemente, que se tornou um dos principais ícones da festividade.


Sua origem está relacionada ao trabalho do ilustrador mexicano José Guadalupe Posada, que criou uma representação satírica da sociedade de sua época. Posteriormente, o muralista Diego Rivera ajudou a popularizar a personagem.


Na tradição, essas representações lembram que a morte faz parte da existência humana e que diferenças sociais, riquezas e posições de poder não alteram o destino de ninguém.



Cada dia tem um significado


As celebrações possuem variações conforme a região e a tradição familiar, mas existe uma divisão bastante conhecida:


  • 31 de outubro: em algumas comunidades, começa a preparação das homenagens e a recepção simbólica das almas.

  • 1º de novembro: tradicionalmente associado à lembrança das crianças falecidas, também chamado de Día de los Angelitos.

  • 2 de novembro: dedicado principalmente à memória dos adultos que morreram, com altares, visitas aos cemitérios e encontros familiares.


Em diferentes localidades, a programação pode incluir apresentações musicais, desfiles, festas populares e manifestações artísticas.



Uma tradição reconhecida mundialmente


A importância cultural do Día de los Muertos ultrapassa as fronteiras mexicanas. Em 2008, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) inscreveu a festividade na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.


O reconhecimento destaca a importância da celebração para a identidade cultural mexicana e para a transmissão de conhecimentos, costumes e tradições entre gerações.



Afinal, qual é a principal diferença entre as duas celebrações?


A diferença mais evidente está na maneira como cada cultura expressa a saudade.


No Brasil, o Dia de Finados é predominantemente associado à oração, ao respeito, à visita aos túmulos e à reflexão sobre a morte. No México, o Día de los Muertos transforma a memória dos antepassados em uma celebração coletiva, na qual cores, alimentos, música e símbolos ocupam lugar central.


Isso não significa que os brasileiros não celebrem a vida de quem partiu ou que os mexicanos não sintam tristeza pela perda. Em ambos os países, o sentimento de saudade está presente. O que muda é a forma cultural de manifestá-lo.


No fundo, as duas tradições compartilham uma mensagem semelhante: a morte encerra uma vida carnal, mas não apaga as histórias, os afetos e as lembranças construídas por quem permanece.

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