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ANÁLISE: Arnaldinho aniquilado

Foto: Divulgação


Há momentos na política em que o silêncio fala mais alto do que discursos inflamados. E há gestos que, embora envoltos em cerimônia institucional, carregam o peso de uma sentença. Foi exatamente isso que se viu nesta semana no Espírito Santo.

 

Na terça-feira, 16 de dezembro, fontes palacianas — sempre bem-informadas quando o poder se movimenta — notaram algo fora do script: Arnaldinho Borgo, prefeito de Vila Velha, saiu do Palácio Anchieta visivelmente abalado após uma conversa reservada com o governador Renato Casagrande. Não foi uma reunião protocolar. Foi um aviso. Ou pior: um enquadramento.

 

No dia seguinte, durante a posse de Luiz Carlos Ciciliotti na presidência do Tribunal de Contas, Casagrande escolheu cuidadosamente as palavras. Falou em humildade. Em lideranças que precisam compreender o seu lugar. Em política como exercício de submissão a um projeto maior. Nada ali foi casual. Na política, discursos institucionais são recados cifrados — e quem precisa entender, entende.

 

Mas o golpe final veio logo depois. Casagrande anunciou, de forma direta e sem rodeios, Ricardo Ferraço como seu candidato à sucessão. O único. O oficial. O ungido. Sem plano B, sem alternativa, sem espaço para ambiguidades. Ou é Ricardo, ou não é ninguém.

 

Esse anúncio não apenas reposiciona o tabuleiro: ele cria um deserto político ao redor de Arnaldinho. Um prefeito jovem, ambicioso, que acreditou — talvez ingenuamente — que poderia crescer dentro da chamada “frente ampla”, agora se vê liquidado como projeto interno. Não há mais dúvida, não há mais negociação, não há mais zona cinzenta. A porta foi fechada por dentro.

 

E aqui reside o ponto central: Ricardo Ferraço não é apenas o escolhido; ele é o símbolo de um modelo político que se recusa a se renovar. Um nome que representa a continuidade de acordos, de pactos de bastidores, de uma política que se apresenta como estável, mas que na prática se alimenta da asfixia de novas lideranças. Ao impor Ricardo, Casagrande deixa claro que o futuro será controlado — ainda que isso custe o sacrifício de quadros que poderiam oxigenar o debate público.

 

Arnaldinho agora está diante de um dilema existencial. Recuar, aceitar o papel de figurante e se submeter ao jugo de seu rival dentro da frente ampla? Ou romper, construir um caminho próprio, ainda que isso signifique atravessar o deserto, enfrentar o isolamento e desafiar a lógica confortável do poder estabelecido?

 

Não se trata apenas de uma escolha pessoal. Trata-se de um teste político. Arnaldinho já demonstrou, ao assumir o PSDB e reorganizar forças locais, que possui habilidade para sair de cercos. Mas habilidade, neste momento, não basta. Será necessário coragem. Coragem para contrariar o Palácio. Coragem para enfrentar Ricardo Ferraço não apenas como candidato, mas como representação de um sistema que não tolera dissidência.

 

O mercado político observa em silêncio. Prefeitos, deputados, empresários e operadores de poder aguardam o próximo movimento. A política, afinal, é também percepção: quem se curva cedo demais perde valor; quem enfrenta no momento errado pode ser esmagado. O timing será tudo.

 

Uma coisa, porém, já está clara: o anúncio de Ricardo Ferraço não fortalece o grupo — ele o estreita. Não amplia horizontes, não cria entusiasmo, não mobiliza o futuro. É uma escolha defensiva, típica de quem governa mais preocupado em controlar a sucessão do que em inspirar uma nova geração.

 

Arnaldinho foi aniquilado dentro do jogo que não escreveu. Resta saber se aceitará esse fim como definitivo ou se transformará a aniquilação em ruptura. Porque, na política, há mortes que encerram trajetórias — e há outras que inauguram guerras.

 
 
 

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