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ANÁLISE | Ricardo Ferraço troca diplomacia por polarização e acende alerta no MDB.

  • há 4 dias
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A decisão de Ricardo Ferraço (MDB) de não comparecer ao evento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em Aracruz pode até agradar setores ideológicos da direita capixaba, mas revela um problema que começa a preocupar até aliados: a dificuldade do governador em separar disputa eleitoral de responsabilidade institucional.


Lula não vem ao Espírito Santo para um ato partidário fechado dentro da sede do PT. O presidente desembarca no Estado para entregar investimentos federais, veículos para a saúde pública e participar de uma agenda nacional que envolve recursos que beneficiarão diretamente municípios capixabas.


Em qualquer democracia madura, governadores compreendem que divergência política não elimina a obrigação institucional. O cargo de governador exige grandeza, diplomacia e maturidade política. E é justamente aí que Ricardo Ferraço começa a emitir sinais preocupantes.


A justificativa apresentada pelo governador — de que recebeu o convite em prazo curto e sem a programação completa — perdeu força rapidamente depois que o Palácio do Planalto informou ao Café com Política ES que o convite foi encaminhado assim que a agenda presidencial foi confirmada, exatamente como ocorreu com os demais convidados.


Na prática, o que fica é a impressão de que Ricardo escolheu não ir.


E escolheu porque quer consolidar uma imagem de afastamento do governo Lula, tentando ocupar um espaço mais à direita dentro do Espírito Santo, especialmente diante do crescimento político de Lorenzo Pazolini, que hoje concentra apoio de setores bolsonaristas e da extrema-direita capixaba.


O problema é que Ricardo parece esquecer um detalhe básico da política: eleição não se vence apenas com ideologia. Se vence também com articulação, diálogo e capacidade de construir pontes.


Até aqui, Ricardo Ferraço dá sinais exatamente opostos.


Desde que assumiu o governo após a saída de Renato Casagrande (PSB) para disputar o Senado, o atual governador acelerou movimentos de distanciamento do PT. Quadros ligados ao partido perderam espaço dentro do governo, houve endurecimento político em áreas sensíveis e o MDB capixaba passou a atuar de maneira cada vez mais hostil à construção de qualquer aproximação com Lula.


Não bastasse isso, Ricardo ainda se alinhou ao movimento interno do MDB contrário a uma aliança nacional com o PT. Ou seja: a ausência em Aracruz não é um fato isolado. É parte de uma estratégia política deliberada.


Mas estratégias eleitorais também produzem consequências.


Hoje, as pesquisas já apontam um cenário de forte polarização entre Ricardo Ferraço e Pazolini. E nesse ambiente, o eleitorado progressista poderá ser decisivo no segundo turno.


O deputado federal Helder Salomão, pré-candidato do PT ao governo, aparece com índices entre 8% e 9% nas primeiras movimentações eleitorais. Em uma disputa tecnicamente empatada, esse percentual pode representar exatamente a diferença entre vitória e derrota.


E é aí que Ricardo talvez esteja cometendo seu maior erro político.


Porque, ao atacar pontes com o PT e demonstrar resistência pública ao presidente da República, ele praticamente empurra o eleitor progressista para longe de um eventual apoio futuro. Ao mesmo tempo, esse eleitorado dificilmente migrará para Pazolini, justamente pela forte presença bolsonarista ao redor do prefeito de Vitória.


O resultado disso pode ser fatal para o MDB capixaba: um segundo turno onde Ricardo precisará desesperadamente de votos que talvez não consiga mais conquistar.


Há ainda um componente simbólico impossível de ignorar.


Ricardo Ferraço não chegou ao governo pelo voto direto para o cargo de governador. Ele assumiu porque era vice de Casagrande. Herdou uma estrutura política construída em ambiente de diálogo amplo, inclusive com setores da esquerda e do governo federal. Mas, em pouco tempo, vem demonstrando um estilo muito mais ideológico, rígido e alinhado à lógica da polarização nacional.


Ao faltar justamente numa agenda presidencial que leva investimentos ao Espírito Santo, Ricardo passa uma mensagem perigosa: a de que prefere alimentar posicionamentos políticos do que demonstrar espírito institucional.


E isso pode funcionar nas redes sociais. Mas nem sempre funciona nas urnas.

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