ANÁLISE | Marcelo Santos entre Lula e a direita: elogio ao presidente pode revelar uma estratégia eleitoral?
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Café com Política ES

Imagem: Arte Café IA
A declaração de Marcelo Santos sobre Lula não pode ser tratada, isoladamente, como uma declaração de apoio eleitoral. Até o momento, o deputado não anunciou publicamente voto ou apoio a nenhum candidato à Presidência da República.
Mas isso não significa que a fala seja politicamente neutra.
Ao afirmar “Quem foi que nos ajudou? Lula” e, depois, reforçar “Eu vou dizer que Lula não ajudou? Não tem como”, Marcelo fez algo que tem peso político: reconheceu uma contribuição de Lula para o Espírito Santo mesmo estando inserido em um campo político que não é identificado com a esquerda.
Mais do que isso, ele rejeitou a lógica de que a divergência ideológica obrigaria um político a negar méritos de um adversário.
“Se a gente falar que Lula, quando presidente lá atrás, e agora, tudo que ele fez foi errado, nós estamos mentindo.”
Essa talvez seja a frase mais importante para compreender o movimento.
Marcelo não disse que Lula é o melhor candidato, não pediu voto para o presidente e não anunciou mudança de campo político. Mas também não adotou o discurso de rejeição absoluta ao petista.
E essa diferença importa.
Casagrande é a ponte política
O segundo elemento dessa equação é Renato Casagrande.
Marcelo Santos não apenas elogiou a gestão do ex-governador. Ele destacou justamente uma característica que pode aproximá-lo do campo político que hoje sustenta a candidatura de Casagrande ao Senado: a capacidade de dialogar com diferentes setores.
Marcelo classificou Casagrande como alguém de centro-esquerda, mas fez questão de ressaltar que isso não o impediu de conversar com instituições, poderes e diferentes forças políticas.
“É diálogo, é gestão moderna e eficiente.”
O elogio ganha outra dimensão quando colocado ao lado do reconhecimento feito a Lula.
Casagrande declarou apoio a Lula. Marcelo apoia Casagrande. Marcelo elogia Casagrande e, no mesmo contexto, faz questão de reconhecer Lula como alguém que ajudou o Espírito Santo em um momento de crise.
Isso não prova que Marcelo votará em Lula. Mas constrói uma sequência política que torna essa possibilidade menos distante.
O “eleitor oculto” de Lula?
É aqui que começa a parte mais interessante — e também mais delicada — da análise.
É possível interpretar o comportamento de Marcelo como uma espécie de aproximação silenciosa do campo lulista?
Sim, como hipótese política.
É possível afirmar que ele já seja um “eleitor oculto” de Lula?
Talvez.
Essa conclusão ainda seria especulativa porque falta o elemento fundamental: uma declaração do próprio Marcelo sobre seu voto presidencial.
O que existe, até agora, é um conjunto de sinais.
De um lado, o deputado reconhece Lula, elogia Casagrande e valoriza uma política baseada no diálogo entre diferentes campos. De outro, permanece sem declarar apoio presidencial e mantém sua identidade política própria.
Esse comportamento pode ser interpretado como uma tentativa de preservar espaço entre diferentes segmentos do eleitorado.
O cálculo eleitoral pode explicar a cautela
Marcelo Santos disputa sua própria sobrevivência eleitoral e, portanto, precisa administrar mais de uma frente política.
Uma declaração aberta de apoio a Lula poderia fortalecer sua aproximação com eleitores de centro e de esquerda, especialmente aqueles que enxergam positivamente a atuação do presidente no Espírito Santo.
Mas haveria um custo potencial.
Marcelo também possui eleitores que se identificam com posições mais conservadoras e com o campo da direita. Um apoio explícito a Lula poderia provocar resistência justamente entre esses segmentos.
Por isso, existe uma interpretação possível de que o deputado esteja utilizando uma estratégia de aproximação sem adesão formal.
Ele reconhece Lula.
Elogia Casagrande.
Defende o diálogo.
Critica a ideia de que tudo feito por um adversário seja necessariamente errado.
Mas não anuncia voto.
Politicamente, essa posição permite que Marcelo converse com públicos diferentes sem fechar imediatamente nenhuma porta.
“Um doce nos lábios da esquerda”?
A expressão pode parecer provocativa, mas traduz uma hipótese eleitoral interessante.
Ao dizer que Lula ajudou o Espírito Santo, Marcelo oferece ao eleitorado de esquerda uma declaração que dificilmente passará despercebida.
Para quem apoia Lula, ouvir um político de outro campo reconhecer publicamente uma contribuição do presidente pode funcionar como sinal de respeito e abertura ao diálogo.
Ao mesmo tempo, Marcelo evita transformar esse reconhecimento em um compromisso eleitoral explícito.
Isso lhe permite dizer, caso seja questionado por setores da direita, que não declarou apoio a Lula; apenas reconheceu um fato que, segundo sua própria narrativa, não poderia ser negado.
É uma posição politicamente confortável.
Mas não necessariamente sem riscos.
A direita também pode reagir
O movimento tem um efeito colateral possível.
Quanto mais Marcelo repetir elogios a Lula, maior será a possibilidade de adversários e setores da direita utilizarem essas declarações para questionar sua posição política.
A frase “Quem foi que nos ajudou? Lula” pode ser retirada do contexto e utilizada como argumento para apresentá-lo como alguém mais próximo do petismo do que sua trajetória política sugere.
Isso pode gerar um problema especialmente em uma eleição em que a polarização nacional tende a contaminar as disputas estaduais.
O risco, portanto, não está apenas em perder eleitores de esquerda por não declarar apoio a Lula.
Marcelo também pode correr o risco inverso: desagradar parte do eleitorado conservador justamente por reconhecer méritos de Lula.
Mas há uma diferença importante
Existe, entretanto, uma proteção política na estratégia adotada pelo deputado.
Marcelo não está dizendo que concorda com Lula em tudo.
Ao contrário. Seu discurso é construído sobre uma ideia diferente: é possível discordar ideologicamente e, ainda assim, reconhecer resultados ou ações positivas.
Essa distinção permite que ele sustente uma narrativa de independência.
É como se a mensagem fosse:
“Não preciso ser lulista para reconhecer que Lula ajudou o Espírito Santo.”
Esse argumento pode ser particularmente útil para um político que pretende ocupar uma posição de centro, dialogando simultaneamente com setores da direita, do centro e da esquerda.
O ponto mais forte da fala
Talvez a maior repercussão não esteja na possibilidade de Marcelo votar em Lula, mas no fato de ele ter rompido com uma lógica muito presente na política brasileira: a de que reconhecer qualquer mérito do adversário significa automaticamente pertencer ao lado adversário.
Marcelo explicitamente rejeitou essa lógica.
Quando afirmou que seria mentira dizer que tudo o que Lula fez foi errado, o deputado estabeleceu uma fronteira entre oposição política e negação política.
E isso conversa diretamente com o elogio que fez a Casagrande.
O fio condutor de todo o discurso é o mesmo: resultado acima da ideologia, diálogo acima do confronto e reconhecimento acima da negação.
A equação política de Marcelo Santos
Se colocarmos as peças lado a lado, o cenário fica mais claro:
Marcelo Santos → apoia Renato Casagrande.
Renato Casagrande → declarou apoio a Lula.
Marcelo Santos → elogia Casagrande.
Marcelo Santos → reconhece Lula como importante na superação de uma crise do Espírito Santo.
Marcelo Santos → ainda não declarou apoio a nenhum presidenciável.
Essa sequência não permite concluir que Marcelo já tenha escolhido Lula.
Mas permite afirmar que suas declarações recentes criaram uma aproximação discursiva com o campo que apoia o presidente.
E isso é politicamente relevante.
O que observar daqui para frente
A verdadeira resposta sobre a estratégia de Marcelo provavelmente aparecerá nas próximas semanas, não necessariamente em uma declaração formal.
Será preciso observar com quem ele estará nos palanques, quais candidatos presidenciais serão mencionados em seus eventos, como reagirá às críticas da direita e se passará a repetir publicamente elogios a Lula.
Também será importante observar se o deputado continuará defendendo uma posição de independência ou se, em algum momento, transformará o reconhecimento feito no podcast em apoio eleitoral.
Por enquanto, o cenário é de ambiguidade calculada.
Marcelo Santos não disse “sou Lula”.
Mas também fez questão de dizer algo que, em uma eleição altamente polarizada, possui enorme significado político:
“Quem foi que nos ajudou? Lula.”
E talvez seja justamente essa ambiguidade que torne sua estratégia eleitoral tão interessante.
Uma leitura possível — mas ainda não uma conclusão
Há elementos suficientes para levantar a hipótese de que Marcelo esteja tentando manter aberta uma porta com o eleitorado lulista sem fechar as portas que possui com a direita.
Mas seria precipitado transformar essa hipótese em fato.
A política, nesse caso, está justamente na zona cinzenta: Marcelo não declarou apoio a Lula, mas fez uma defesa de sua atuação que dificilmente seria feita por alguém que pretendesse manter distância absoluta do presidente.
Se isso representa gratidão histórica, estratégia eleitoral, aproximação com Casagrande ou uma combinação das três coisas, somente os próximos movimentos do deputado poderão confirmar.
Por enquanto, uma coisa é possível afirmar: Marcelo Santos colocou Lula dentro do seu discurso político. E fez isso de maneira espontânea, enfática e repetida.
Em uma eleição presidencial marcada pela polarização, isso está longe de ser um detalhe.
























































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