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Antes da Catedral, um templo que fez Vitória nascer: a história esquecida da antiga Matriz.


Por Addison Viana


Muito antes dos vitrais e torres da atual Catedral, um templo simples foi o coração político, religioso e social de Vitória por quase quatro séculos.


Foto: Arquivo Público Municipal - Altar-mor da antiga Igreja Nossa Senhora da Vitória.


Antes de a atual Catedral Metropolitana de Vitória se tornar um dos cartões-postais mais conhecidos da capital capixaba, outro templo ocupava o mesmo espaço na Cidade Alta. Era a antiga Matriz de Nossa Senhora da Vitória, construída entre 1550 e 1552, ainda nos primeiros anos da fundação da Vila de Vitória. Por quase 400 anos, ela foi o principal ponto de encontro da vida pública, religiosa e social da cidade.


Mais do que um espaço de fé, a matriz acompanhou momentos decisivos da história capixaba. Ali passaram autoridades coloniais, líderes religiosos e moradores comuns, em uma época em que Igreja e Estado caminhavam juntos. O templo ajudou a organizar a ocupação do território e a moldar costumes, regras sociais e até decisões políticas.


Foto: Arquivo Público Municipal - Grupo escolar Gomes Cardim em frente da Catedral, nas exéquias do Barão do Rio Branco. 1912


A igreja fazia parte de um importante conjunto arquitetônico religioso do Centro Histórico, ao lado do Colégio dos Jesuítas — atual Palácio Anchieta — e da Igreja de Nossa Senhora da Misericórdia. Esse trio simbolizava a forte presença da Igreja Católica na formação urbana de Vitória, em um período em que o governo português financiava construções religiosas e o clero exercia funções que iam além da fé, influenciando diretamente a vida da população.


De arquitetura simples, a matriz foi erguida em uma área elevada, posição estratégica e comum na época, garantindo destaque no desenho urbano. Suas paredes eram feitas de pedra, barro e cal. O prédio tinha formato retangular, uma torre com sino e um interior pouco ornamentado, com exceção do altar-mor dedicado a Nossa Senhora da Vitória. Em frente à igreja, o Largo da Matriz servia como espaço de convivência e também abrigava um pequeno cemitério.


Foto: Arquivo Público Municipal - Interior da antiga Catedral de Vitória com o catafalco do Barão do Rio Branco, em 1912.


Mesmo sem imponência arquitetônica, o templo foi palco de eventos históricos marcantes. Foi ali que autoridades juraram fidelidade à Constituição Portuguesa, em 1821, e à Constituição do Império, em 1824. As cerimônias reuniam representantes civis, militares e religiosos, além da população local, reforçando o papel central da igreja na vida pública da cidade.


Com o passar dos séculos, porém, o desgaste da estrutura tornou-se evidente. Reformas foram autorizadas ainda no período colonial, mas muitas demoraram a sair do papel ou se estenderam por décadas. No século XIX, a situação se agravou, especialmente após a Proclamação da República, em 1889, quando a separação entre Igreja e Estado encerrou o repasse de recursos públicos para manutenção do templo.


No fim do século, relatos descreviam a matriz em condições precárias. Apesar de algumas reformas e da criação da Diocese do Espírito Santo, em 1895, a antiga igreja já não atendia às expectativas de um templo considerado central para a capital. A decisão final veio em 1917: a demolição da velha matriz para a construção de uma igreja maior e mais imponente.


Em 6 de julho de 1918, a Matriz de Nossa Senhora da Vitória foi demolida. Dois anos depois, no mesmo local, teve início a construção da atual Catedral Metropolitana, que passou a representar uma nova fase da cidade. Ainda assim, a antiga matriz permanece viva na memória histórica de Vitória, como símbolo de origem, fé e transformação ao longo dos séculos.

 
 
 

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