ANÁLISE: Ricardo Ferraço dá o tom: "Estou pronto para a guerra", e o jogo muda para Arnaldinho.
- Addison Viana
- 9 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

Há movimentos na política que não se explicam — se decifram.
E o gesto de Ricardo Ferraço, ao endurecer o discurso e marcar posição contra o grupo hartunguista, não foi um simples ato de comunicação: foi uma declaração de guerra interna, uma delimitação de território e um recado direto para quem está acostumado a operar os bastidores do Espírito Santo há mais de duas décadas.
1. O contexto: Arnaldinho cresce, o PSDB muda de dono e o tabuleiro se realinha
A entrada de Arnaldinho no PSDB já havia desestabilizado a frente ampla. A forma como entrou — atropelando resistências locais, empurrado por forças nacionais, desmontando expectativas prévias — mostrou que o tabuleiro não estava mais sob controle do velho consórcio político formado por Casagrande + Hartung + PSB.
Mas quando Ricardo Ferraço toma o microfone e não apenas discursa, mas confronta diretamente elementos identitários da terceira gestão hartunguista, ele muda o eixo da disputa: sai da luta por vaga e entra na luta por hegemonia.
Ricardo não apenas está dizendo que é candidato.
Está dizendo que ninguém vai passá-lo para trás pela terceira vez.
2. Vandinho Leite como símbolo da falha estratégica
O atropelo sobre Vandinho Leite não é sobre Vandinho — é sobre a representação.
Quando Arnaldinho toma o PSDB, ele expõe: um aliado fraco, sem musculatura própria,
dependente do cargo, que só sobrevive como “bóia de líder de governo”, e que não conseguiu entregar a Ferraço nem o mínimo de proteção estratégica.
Ricardo entendeu o recado: quem está fraco vira obstáculo; quem vira obstáculo é retirado da mesa.
A dureza com que ele falou foi também um aviso: “Não mais.”
3. O gesto de Ricardo: o primeiro tiro de uma guerra na base casagrandista
Não foi um discurso contra o governo. Foi um discurso contra o legado do governo.
Contra a estrutura hartunguista que ainda respira dentro da máquina. Contra interlocutores que usam o casagrandismo para operar o hartunguismo.
E por isso, quando Ricardo fala de: paralisia, fragilidade, e declínio do modelo que domina o estado há três gestões, ele está mirando muito mais alto do que Casagrande. Ele está mirando Hartung e o sistema que Hartung deixou funcionando.
O que Ricardo quer expor é claro:
> “Vocês não vão me desmontar novamente, não vão me trocar, não vão repetir 2010 e não vão tentar operar pelas sombras.”
É o anúncio de que ele está pronto não para concorrer — mas para resistir.
4. A pergunta central: Arnaldinho consegue repetir esse tom?
E aqui nasce a dúvida estrutural que muda completamente o xadrez: Arnaldinho pode crescer eleitoralmente. Mas consegue crescer politicamente?
Ricardo se posicionou como gladiador. Arnaldinho, até agora, se posicionou como beneficiário.
Para Arnaldinho dar o mesmo tom, ele teria que: romper com interlocutores hartunguistas que o ajudam nos bastidores, confrontar a estrutura que o projetou, disputar espaço com quem o empurrou para cima, e assumir um perfil de liderança independente.
Essa ruptura, se vier, seria traumática. E talvez seja inevitável. Porque o gesto de Ricardo cria uma linha divisória no campo:
> De um lado, quem está pronto para disputar a hegemonia. Do outro, quem ainda precisa pedir permissão.
5. O movimento subliminar: o golpe na narrativa do “candidato de Hartung”
Ao citar Hartung indiretamente, Ricardo acendeu o farol sobre um ponto sensível:
a sombra hartunguista sobre Arnaldinho.
É subliminar, porém devastador:
1. Se Arnaldinho sobe por ajuda hartunguista, ele é produto do sistema, não alternativa.
2. Se ele não responde, confirma dependência.
3. Se ele responde, rompe relações que ainda sustentam sua candidatura.
Ricardo expôs o dilema sem precisar nomear: Arnaldinho sobe, mas sobe apoiado pelo mesmo grupo que sabotou Ricardo no passado.
Isso cria uma dúvida estratégica na base: Arnaldinho será um Casagrande 2.0? Ou será um Hartung 4.0? Ou será um candidato de si mesmo?
A dúvida foi plantada. E dúvidas, na política, são vírus: se multiplicam sozinhas.
6. A lição: quem define o tom define a liderança
Ricardo fez algo matemático: quem dá o tom no início da guerra, controla o ritmo dela.
O discurso não foi reação. Foi fundação.
Ele construiu: narrativa de força, narrativa de ruptura, narrativa de autonomia, narrativa de prontidão.
Agora a pressão está sobre Arnaldinho — não mais sobre Ricardo.
7. Conclusão: a disputa não será mais sobre candidatura. Será sobre narrativa.
Ricardo inicia a guerra dizendo:
“Estou preparado.”
“Não aceito ser empurrado.”
“Não serei substituído.”
“Não serei manipulado pelo velho sistema.”
“Estou pronto para enfrentar, inclusive, Hartung.”
E deixa Arnaldinho encurralado em uma encruzilhada: Ou responde no mesmo tom e prova força, ou assina a imagem de dependência e fragilidade.
O recado foi muito maior do que parece. Foi a abertura oficial da disputa interna pela hegemonia da direita capixaba — e pela alma da frente ampla.

























































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